A espanto se deu dois dias antes de embarcar; (como sempre, eu estava mais uma vez sobrecarregado de compromissos a serem honrados até duas horas antes do embarque).
Ao checar a previsão do tempo para a Cidade do Cabo no meu site predileto http://br.weather.com/ deparei-me com uma previsão de temperaturas entre 7 e 12º C!! Gelei. Achei que estava errado. Pesquisei outro e outro sites. A informação era consistente!
Porque o espanto, perguntou-me Leiner. A Cidade do Cabo não está na mesma latitude que Porto Alegre? Então...
Mas essa não é a fantasia que temos da África Subsaariana. Imaginamos um lugar quente, tórrido!
Já escaldado, fui ver a situação nos outros destinos: Nairobi: 12 a 19ºC. Um pouco melhor, mas ainda fora do "padrão". (Nairobi está na linha do Equador, mas a 1680 m de altitude!). No Masai Mara e Serengeti estava mais frio que isso!
Quem já esteve em Seattle, Estados Unidos, pode ter uma ideia de como é a Cidade do Cabo: uma cidade litorânea, cercada de montanhas, arquitetura moderna, limpa, com bairros de alto padrão habitados por brancos.
Sim, claro, estamos no Terceiro Mundo, é verdade. Há favelas, que eles chamam de "Informal Settlements" e negros pobres pelas ruas. Igualzinho a uma cidade americana...
Bom, nesse caso [das favelas], talvez seja melhor compará-la com o Rio de Janeiro. Na orla, essa semelhança fica mais evidente. Com a questão de segurança também.
(uma dessas fotos é do Rio de Janeiro e a outra é da Cidade do Cabo...)
Nesse quesito, segurança, o Rio parece levar vantagem. É possível locomover-se livremente a pé e em transporte público, o que está fora de cogitação na Cidade do Cabo.
A Cidade do Cabo está promovendo um grande processo de gentrificação do seu porto. Há ali um imenso complexo de shoppings centers, de edifícios residenciais e escritórios com a aparência de que está dando certo. Chama-se Waterfront. Mas, por volta das 22h horas tudo morre e os turistas devem retornar ao hotel. De táxi.

A paisagem da Cidade do Cabo é dominada pela Montanha da Mesa, uma montanha cujo topo é achatado, tipo de relevo muito comum na Chapada Diamantina. Há um bondinho que sobe até o topo da montanha. Há também trilhas de algumas horas. Seguindo o conselho do Lonely Planet, eu subi pelo bondinho e desci a pé.
Foto by Rita Kitty
Foto by Rita Kitty
Para um brasileiro, acho que uma das coisas mais relevantes que se pode fazer aqui é visitar o Cabo da Boa Esperança. Eu queria ir de bicicleta! Não dá. São 60 km de distância. A melhor solução seria alugar um carro. Fora de cogitação, pois na África do Sul vigora o estilo inglês de dirigir, os volantes dos carros ficam do lado direito e todo mundo dirigindo na contra-mão!
Então, acabei encontrando uma operadora que oferece o passeio ao Cabo da Boa Esperança com uma parte - exatamente a que chega na ponta - de bicicleta! Meu objetivo foi alcançado.
Era um tour turístico convencional. Eu estava em uma van com dez outras pessoas e o guia local.
Passamos por False Bay, a outra baía que fica como uma imagem em espelho em relação à Table Bay, que é baía que fica em frente à cidade, e vários vilarejos ao longo da costa de False Bay, até chegarmos em Boulders Beach, onde tem uma colônia urbana de pinguins.
Depois, chegamos ao Parque Nacional no qual está localizado o Cabo da Boa Esperança. Almoço tipo piquenique fornecido pelo tour e depois cada um pegou a sua bicicleta e seguiu por uma meia hora até o Cabo da Boa Esperança propriamente dito.
[Este é o Cabo das Tormentas!!]Neste percurso vimos alguns avestruzes. Nas brochuras dos passeios, aparecem fotos de zebras, que eu não avistei. Já quando estávamos indo embora, avistei três Elands, o maior dos antílopes da África.

Quase todo mundo pensa que o Cabo da Boa Esperança é o ponto mais meridional da África, o que é um erro. O ponto mais ao sul da África se chama Cape Agulhas, assim mesmo, em português (eles pronunciam [quiepe agálas]), que fica a 150 km a nordeste dali. Eu quis ir no Cape Agulhas, que é de fato onde os dois oceanos se encontram, mas não deu, era muito longe, e eu não tinha tempo.
Mas, o Cabo da Boa Esperança é um marco histórico, e é de fato um lugar muito lindo. As autoridades turísticas da África do Sul preferem alimentar o mito. Então, colocaram esta placa lá com uma pegadinha: "o ponto mais sudoeste do continente africano". Quem tem a mínima noção de localização espacial sabe que até Cape Point, ao lado, está mais ao sul do que o Cabo da Boa Esperança!

Ouvi falar de Hermanus, um dos melhores lugares do mundo para se observar baleias estando em terra! Dizia a fonte que há dias em que até 70 baleias aparecem na baía de Hermanus. E a estação de baleias estava começando!
Então, formamos um grupo de 6 amigos, contratamos um tour particular e lá fomos nós para Hermanus! era uma manhã chuvosa e muito fria!
No meio do caminho nos deparamos por acaso com a colônia de Pinguins de Betty´s Bay, muito maior do que a colônia de Boulders Beach e em uma praia mais isolada. Depois, paramos em um Jardim Botânico no-meio-do-nada.

Tudo parecia perfeito, até que o pneu da nossa van furou. Nada de mais. O motorista /guia, depois de alguns contratempos encontrou o pneu step e efetou a troca.
Agora começaram os problemas: o step também estava furado! A esta altura dos acontecimentos, já estávamos famintos, com frio, no meio de uma estrada pouco movimentada...
Mas o motorista conduziu a van com o pneu furado até um posto de gasolina.
Finalmente chegamos a Hermanus, azuis de fome. Por sorte, encontramos um restaurante maravilhoso, que servia uma sopa muito quentinha!
Mas o dia já estava acabando. Fomos à falésia, ficamos lá e nada de baleias. Quando já estávamos indo embora, duas baleias apareceram e fizeram a festa.
Afinal de contas, foi um dia maravilhoso. Mas, ao voltarmos à Cidade do Cabo, reclamei com muita veemencia junto à agência que nos enviou em um tour com o pneu step furado. O gerente da agência ofereceu, junto com um pedido de desculpas, um reembolso de 50% do valor pago. Justo.
Findas as nossas aventuras Sulafricanas, Ana Carla e eu começamos a nossa viagem de fato rumo norte: Quênia e Tânzania


